Da Diocese

Carta Pastoral, por ocasião do centenário da Carta Maximum Illud e da Assembleia Sinodal para a Amazônia

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Diocese de Campo Maior
Outubro – Mês Missionário Extraordinário 2019

Carta Pastoral ao Povo de Deus da Diocese de Campo Maior, por ocasião do centenário da Carta Apostólica Maximum Illud, do Papa Bento XV e da Assembleia Sinodal para a Amazônia convocada pelo Papa Francisco nos dias 06 a 27 de Outubro de 2019, em Roma. Invocando neste dia, São Francisco de Assis, o cantor da harmonia das criaturas e patrono de todos que se dedicam ao estudo e à defesa da ecologia.

Ao Clero Diocesano, aos seminaristas, às religiosas, às novas Comunidades de vida, aos leigos e leigas, aos comunicadores sociais e a todo o povo de Deus na Diocese de Campo Maior.

Queridos irmãos e irmãs,

O Papa Francisco em outubro de 2017, anunciou o Mês Missionário Extraordinário para toda a Igreja com a intenção de celebrar o centenário da Carta Apostólica Maximum Illud, do Papa Bento XV que, naquela realidade mundial de pós-guerra, apresentara a centralidade da missão na Igreja que é o anúncio da caridade e da salvação em Cristo Jesus para todos os povos, suplantando as divisões. o Papa Francisco convocara toda a Igreja para um tempo especial com o “objetivo de despertar a consciência ad gentes e retomar com novo impulso a transformação missionária da vida e da pastoral.”

Apresento breve contextualização elencando fatos que nos apontam os grandes desafios que estão colocados pela realidade cada vez mais urbana em acentuada mudança cultural sob todos os aspectos. Com isso pretendo confirmar a partir da vocação cristã e do Magistério, o nosso lugar na Igreja e empenho pela ação evangelizadora visando o bem e a salvação dos filhos e filhas de Deus. “Na ordem da moralidade, a Igreja tem uma missão distinta das autoridades políticas. A Igreja se preocupa com os aspectos temporais do bem comum em razão de sua ordenação ao sumo Bem, nosso fim último” (catecismo da Igreja Católica n. 2420).

A princípio cito a globalização, antes uma teoria e agora definidora de comportamentos. A velocidade das tecnologias e seus avanços nos processos de comunicação tem efeito maléfico quando cria um isolacionismo pessoal, uma cultura virtual, onde a presença fica relegada e com isso, o arrefecimento dos laços familiares, religiosos, sociais que deveriam incidir na consolidação de forças para galgar as mudanças necessária para o desenvolvimento humano integral. “O tempo atual exige de todos nós a renovação das forças missionárias para bem cumprir a tarefa de anunciar a Palavra de Deus e, assim, promover a paz, superar a violência, construir pontes em lugar de muros oferecer a misericórdia de Cristo Jesus como remédio para a vingança e reacender a luz da esperança para vencer o desânimo e a indiferença” DGAE CNBB – 109. P.70.

A cultura urbana está acentuando o individualismo como valor, onde cada um julga poder criar seus conceitos a partir do princípio do liberalismo moral, onde isoladamente cada um é a medida de si. Esse fechamento diminui a arena social para contraposição das diferenças, as convenções e os novos conceitos. Resultante disso é a imposição do corporativismo de interesses particulares em detrimento de uma grande maioria que fica à mercê de favores, quando na realidade é detentora de direitos que deveriam estar garantidos por políticas públicas. “A forte acentuação na individualidade traz como consequência o enfraquecimento das instituições e das tradições” (DAp n.39).

As novas mídias e a velocidade da comunicação, num mundo urbano e globalizado, instauraram as notícias falsas, fake news, com grande poder de desconstrução da verdade e diminuição do campo de defesa. Ironicamente, as novas tecnologias de comunicação pela internet diminuíram o espaço público para a aceitar o contraditório. Repete-se sobretudo a cultura da ideia absoluta. Essa polarização cria a intolerância, onde cada um é detentor de opinião inegociável. A intolerância para além de agressões verbais, traz consequências danosas e irreparáveis à vida humana, basta conferir os números ruidosos dos homicídios em nossas cidades, frente a isso, a incapacidade dos governos de apresentar políticas públicas de superação da violência com projeto de segurança para o cidadão atordoado pela diversas formas de criminalidade, uma mazela social em nossos tempos. Aqui no Piauí houve redução de 6% no percentual de mortes violentas no último ano, porém os números são preocupantes; segundo o G1 “enquanto em 2017 foram registradas 650 mortes violentas no estado, em 2018 foram 612 – mais de uma morte por dia no ano. O número inclui homicídios dolosos, lesões corporais seguidas de morte e latrocínios.”

Nossos dias não os melhores. O Brasil está numa crise sem precedentes na sua história recente. A política brasileira, compreendida, como a atividade estrutural de uma nação, foi mergulhada pelos seus atores primeiros, siglas partidárias, empreiteiras e agentes públicos do judiciário, numa crise moral que a esfacelou, e decorrência disso é a chamada demonização da política. Homens públicos colocaram a democracia brasileira em crise, e com isso as consequências, como a mobilização de muitos em defesa de intervenção militar, o preconceito regional, étnico, social e religioso. A intolerância foi acentuada, com trágicos resultados dentre eles, a violência física e o descrédito na reconstrução da cidadania pela via democrática, jurídica e institucional. “Vivemos em um sistema social e econômico que é injusto em sua raiz. O mal consentido tende a expandir a sua força nociva e a minar, silenciosamente, as bases de qualquer sistema político, social, cultural, por mais solido que pareça” (DGAE . CNBB 109. N. 64)

Essa crise e política não é de hoje. Mas se asseverou em 2013 quando as forças do mercado, inclusive as empresas de comunicação, desiludidas com um estilo de política governamental socialista, que não mais os favorecia, instigaram os ânimos de uma população também desiludida, dadas as consequências da crise econômica mundial instalada no Brasil e das políticas equivocadas de Governo na área das finanças, segundo especialistas. Nessa realidade conta o interesse das siglas e dos seus apoiadores, o povo e suas reivindicações são apenas detalhes nessa roda de interesses dos mercados multinacionais advogada por agremiações partidárias.

O ano de 2016 tornou-se crucial com um processo de impedimento de Governo considerado duvidoso, inclusive por parte do judiciário. Fatos apresentados recentemente pelos órgãos de imprensa acusam que houve manipulação política e jurídica que pode ter contribuído com a eleição de um governo de extrema direita alicerçado pela polarização. “Ficamos chocados ao ver como as regras fundamentais do devido processo legal brasileiro foram violadas sem qualquer pudor. Não há Estado de Direito sem respeito ao devido processo legal. A luta contra a corrupção é hoje um assunto essencial para todos os cidadãos do mundo, assim como a defesa da democracia”. Uma fala de juristas internacionais destacada nas redes sociais do jornalista Reinaldo Azevedo (12\08\2019).

Na democracia está assegurado o direito de expressão, inclusive expressão eleitoral que vem das urnas, porém políticas adotadas devem ser questionadas, a exemplo, as políticas de segurança pública, a lei de liberação uso e porte de armas, o corte de verbas públicas, inclusive da Educação, as políticas ambientais já de saída criticadas mundialmente e, por fim a reforma da Previdência. Não há dúvida de que a vida das pessoas e a garantia dos seus diretos deve prevalecer na construção de uma política de mercado. Quanto à reforma da Previdência, declarou a CNBB que “nenhuma solução para equilibrar um possível déficit pode prescindir de valores éticos-sociais e solidários.”

O Papa Bento XVI, por ocasião das eleições de 2010, lembrou aos bispos brasileiros que “quando os direitos fundamentais da pessoa ou a salvação das almas o exigirem, os pastores têm o grave dever de emitir um juízo moral, mesmo em matérias políticas”. Já o Papa Francisco afirmou que “temos que nos envolver na política, porque ela é uma das formas mais altas de caridade”.

A política, para além de partidarismos, deve ser, por isso assumida pelos cristãos, daí a importância dos Conselhos Municipais e a presença de leigos e leigas comprometidos com os ensinamentos da Igreja. Em síntese, disse em 2002, o Cardeal Ratzinger que “não pode haver, na sua vida, dois caminhos paralelos: de um lado, a chamada vida espiritual, com os seus valores e exigências, e, do outro, a chamada vida secular, ou seja, a vida de família, de trabalho, das relações sociais, do empenho político e da cultura”.

Em meio a esse turbilhão de fatos, a economia ainda não dá sinais de superação da estagnação. O desemprego continua na marca dos 13 milhões, o trabalho informal já contabiliza 14 milhões de trabalhadores. A deflação e o crescimento pífio do mercado, além dos sobressaltos da crise política e das instituições da Federação afastam investidores, segundo especialistas. A falta de perspectivas joga parte da população na depressão social e com isso, envereda-se pelo ‘salve-se quem puder’ buscando alternativas de sobrevivência. “A alegria de viver frequentemente se desvanece. Crescem a falta de respeito e a violência, a desigualdade social torna-se cada vez patente. É preciso lutar para viver, e muitas vezes com pouca dignidade” EvG n. 52).

Embora que a médio prazo, é preciso estabelecer um programa educacional frente à crise mundial da cultura urbana que individualiza, deprecia, marginaliza socialmente e escancara os preconceitos e a intolerância como recurso de autoafirmação pessoal. A sociedade, dentre ela as juventudes, precisam de parâmetros que restabeleçam os valores fundamentais da pessoa: a família, a religião e a cidadania como dever e direto. “Nos jovens estão também os golpes, os fracassos, as tristes memórias gravadas na alma. Além disso, em alguns contextos juvenis se difunde uma certa atração por comportamentos de risco como instrumento para explorar a si mesmos, buscando emoções fortes e obter reconhecimento. Jesus se faz presente nessas cruzes dos jovens para oferecer-lhes sua amizade, seu alívio, sua companhia que cura e a Igreja quer ser instrumento nesse caminho para a restauração interior e a paz do coração” (Christus Vivit. N.83).

O diálogo ao invés do confronto deve fazer a diferença na afirmação da pessoa e na consciência de si e na interação social. O confronto numa sociedade democrática deve sempre ser o das ideias. “Um mundo cada vez mais urbano, embora possa assustar, é, na verdade uma porta para o anúncio do Evangelho, e as comunidades cristãs precisam ter um olhar propositivo sobre essa realidade” DGAE CNBB 109 n. 114)

Nesse contexto macro, porém aqui apresentado parcialmente, está a Igreja. Não há dúvida que em meio às crises externas a vida eclesial também foi abalada. O contexto atual pede que as razões da fé sejam claras, que haja fidelidade ao Magistério da Igreja e às suas pautas pastorais, como dos sínodos convocados pelo Papa Francisco: família, juventude e pan-amazônia.

O pontificado do Santo Padre acentua a missão da Igreja, naquela expressão que se solidificou como indicação do caminho eclesial “igreja em saída, samaritana e misericordiosa”. Daí os recentes documentos da igreja: Amoris Laetitia, Evagelii Gaudium, Laudato Si, Chistus Vivit, dentre os principais. A atual convocação do Papa Francisco para que a Igreja celebre o Mês Missionário Extraordinário – Batizados e enviados, a Igreja de Cristo em Missão no Mundo – nela se evidencia que “é importante, renovar o compromisso missionário da Igreja, potenciar evangelicamente a sua missão de anunciar e levar ao mundo a salvação de Jesus Cristo, morto e ressuscitado.” O Cristo Vivente.

Outro evento de singular significado é o Sínodo para a Amazônia, nos dias 06 a 27 de outubro em Roma. “O Papa Francisco nos propõe a necessidade de uma nova visão, que abra caminhos de diálogo para ajudar-nos a sair da senda da autodestruição da atual crise socioambiental” Instrumentum Laboris/Sínodo n.35). Evidencia-se na convocação para a Assembleia Sinodal para a Amazônia a relevância da Encíclica Laudato Si – sobre o cuidado da casa comum e o despertar da vocação da Igreja na defesa da vida integral. “O sétimo mandamento manda respeitar a integridade da criação. O uso dos recursos naturais não pode ser separado do respeito às exigências morais. O domínio dado pelo criador ao homem e medido por meio da preocupação pela qualidade de vida do próximo, inclusive das gerações futuras” Catecismo da Igreja Católica n. 2415).

A Conferência Nacional do Bispos do Brasil – CNBB – em plena comunhão com a Igreja Universal, repropõe o estilo catecumenal dos tempos apostólicos para a Catequese de iniciação à vida cristã, que visa a formação do discipulado de Cristo para o anúncio da Boa Nova. Esse estilo deve perpassar todas as pastorais, movimentos e serviços para que de fato, seja a igreja decididamente missionária. Nesse contexto, evidencia-se a missão dos leigos e leigas “sal da terra e luz do mundo”, nas diversas exigências da ação evangelizadora. A Igreja Católica é incansável na construção do Reino de Deus rumo à Pátria definitiva, evidenciando agora a formação do seu povo, a missão itinerante, a ação sócio-transformadora e a defesa da vida e da justiça, em meio a tantos desafios.

No cenáculo de Jerusalém, O Cristo coloca-se em meio aos discípulos e confirma-os missionários: “assim como o Pai me enviou, eu vos envio” (Jo 20,19). Tamanha dignidade na eleição dos discípulos missionários também significa igual responsabilidade, pois a mesma missão de Cristo é também da sua Igreja. Por isso mesmo, “Batizados e enviados. A Igreja de Cristo em Missão no Mundo”.

A Igreja que perdoa e pede perdão, também tem coragem de olhar para si mesma e se repropor à necessária atualização da sua linguagem, do uso dos novos recursos tecnológicos e da formação permanente dos agentes pastorais ordenados e leigos. Sem abrir mão de sua Doutrina e contrapondo-se aos liberalismos de ocasião, a Igreja é defensora primeira da vida em plenitude, desde a concepção ao seu declínio natural. Defensora do sacramento matrimonial e da família, santuários da vida. “No âmbito familiar, pode-se aprender também a discernir criticamente, as mensagens dos vários meios de comunicação. Muitas vezes, infelizmente, alguns programas televisivos ou algumas formas de publicidade incidem negativamente e enfraquecem valores recebidos na vida familiar. A família é a primeira escola dos valores humanos, na qual se aprende o bom uso da liberdade” (Amoris Laetitia n.274)

As Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja 2019 – 2023, dão sequência ao projeto pastoral de anos anteriores e reafirma que no mundo urbano, é necessário que a igreja se volte para as comunidades eclesiais missionárias, para que em torno da Palavra e do Pão, cada cristão refaça o caminho da Caridade e da Missão. De fato, a conversão pessoal para a conversão pastoral, atualíssimo Documento 100. “Comunidades de Comunidade, uma nova paróquia” deve ser estudo diário, lá está o traço pastoral para novos tempos na formação de uma paróquia missionária.

Em nossa Diocese de Campo Maior estamos sintonizados com essas pautas da ação evangelizadora da Igreja do Brasil. A realidade nos impele a trilhar com coragem e ousadia de discípulos, os desafiantes caminhos para superação do catolicismo de manutenção para uma cultura vocacional e pastoral missionária. A nossa assembleia diocesana deve projetar a ação evangelizadora para os próximos anos. Sabendo que o resultado do Sínodo da Juventude, as Novas Diretrizes da Ação Evangelizadora e a formação dos agentes das pastorais, movimentos e serviços, com a imediata preparação dos Ministros da Celebração da Palavra já estão pautados. Faz-se urgente o Diretório Pastoral e Administrativo das Comunidades e Capelas, bem como colocar a Diocese em níveis mais profissionais quanto à administração dos recursos, restauração e zelo do seu patrimônio.

Às vésperas da canonização de Santa Dulce dos pobres, invoco-a como modelo para a vida cristã na construção da cultura do encontro. Como exortação à nossa conversão, vos recordo as palavras do Papa quando disse que: “não devemos olhar apenas para as pessoas, mas ver; não ouvir apenas, mas escutar; não só passar por elas, mas parar. Não dizer apenas ‘que pena, pobres pessoas’, mas deixar-se levar pela compaixão. E depois, aproximar-se, tocar e falar de modo mais espontâneo, a linguagem do coração”. Que o nosso querido Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, nos dê sua Paz e sua Bênção para continuarmos servidores na construção do Reino e na esperança de um mundo melhor para todos com Justiça, Caridade Paz.

Na festa de São Francisco de Assis,
o poeta da criação de Deus e da fraternidade universal.
04 de Outubro de 2019, Campo Maior – PI

+Francisco de Assis Gabriel dos Santos

Bispo da Diocese de Campo Maior

 

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