Da Diocese Voz do pastor

Carta aos Seminaristas da Diocese de Campo Maior

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Diocese de Campo Maior

Carta aos seminaristas

Queridos seminaristas,

  1. “O seminarista é chamado a ‘sair de si mesmo’, para caminhar, em Cristo, em direção ao Pai e aos outros, abraçando o chamado ao sacerdócio, e empenhando-se em colaborar com o Espírito Santo para realizar uma síntese interior entre força e fraqueza” (Ratio Fundamentalis Institucionis Sacerdotalis, p. 39). Com essa introdução me dirijo a todos para também evidenciar nosso espírito de comunhão e destacar alguns pontos do processo formativo para o sacerdócio ministerial a serviço do povo de Deus nas suas diversas expressões pastorais e nas conjunturas eclesiais e sociais.
  2. Uma das belas experiências que fiz enquanto padre foi ser reitor do seminário redentorista. Na linguagem dos religiosos usamos mais a expressão Casa de Formação, pela consciência de que muitos jovens que passam pelos Seminários são formados para a vida e para a cidadania, não estritamente para o sacerdócio ministerial, embora todos recebam a mesma formação, cuidado e carinho. É essencial que a “casa de formação” cumpra a sua missão de casa do discernimento vocacional. Enquanto Reitor da Filosofia, ficava muito satisfeito quando o jovem se decidia após um caminho de amadurecimento e em muitas vezes, a duras penas e sacrifícios.
  3. Confesso que tive uma formação numa realidade bem estruturada, desde o espaço físico ao espaço do desenvolvimento humano com foco na espiritualidade missionária do seguimento de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ser missionário era a busca incessante de todos, e como ser missionário era a condição primeira para o discernimento vocacional. Ainda no Seminário Menor, também chamado de Aspirantado, o padre provincial perguntou-me como queria ser missionário e, imediatamente, disse: nas paróquias. Trabalhei em três paróquias e em uma área pastoral e fui reitor. Estas foram as principais experiências que me moldaram no serviço à Igreja.
  4. O chamado de Deus acontece na realidade de cada um, daí é preciso entender esse chamado para que a resposta seja autêntica. A resposta vocacional de cada jovem depende da profundidade de suas buscas dentro do processo formativo com suas etapas. A espiritualidade (vida de oração e seguimento de Cristo), a maturação humana (conhecimento de si), a vida acadêmica (estudo específico e complementar) e a vida comunitária (equilíbrio para viver a fraternidade presbiteral e eclesial) são conteúdos irrenunciáveis no processo para o discernimento vocacional. Para alcançar os níveis desejados é preciso que cada seminarista se abra com generosidade e confiança à Graça de Deus nas mediações da equipe de formação.
  5. “Quem quer se tornar sacerdote, deve ser sobretudo um ‘homem de Deus’. O sacerdote é o mensageiro de Deus no meio dos homens, para fazer crescer a comunhão” (Papa Bento XVI). Costumo dizer que a fé em Deus nunca será uma teoria bem formulada, ela é uma experiencia feita na oração, que não significa celebrar rituais, mas viver em Deus. Estar em sintonia com Ele. Isso pode ser feito na oração diária, na liturgia sacramental, no estudo da Palavra, sensibilidade diante dos irmãos e no exercício do amor ao próximo.
  6. Destaco o crescimento da consciência de si no processo de formação. “Como a vocação sacerdotal se realiza numa pessoa humana concreta, para o bem da comunidade cristã e do próprio sacerdote, é preciso que tenha equilíbrio e alcance maturidade humana e espiritual” (Presbítero anunciador…CNBB, n.33, p. 25). Essa é a difícil missão do Seminário e dos seus formadores, diretores espirituais e da própria comunidade dos seminaristas que também é formadora e exerce papel importante. A Igreja é uma fraternidade e não uma aglomeração de homens hábeis, criativos e pouco comprometidos com a diocese e sua ação evangelizadora. “O ministério sacerdotal não pode, de modo algum, ser individual e tampouco individualista” (Papa Francisco).
  7. Cada etapa da formação dos seminaristas tem sua especificidade. Dentre elas, é imprescindível destacar a academia, não como rito de passagem, mas tempo oportuno para aquisição de conteúdo, método e disciplina. “Muitas vezes as matérias de estudo parecem distantes da vida cristã e da prática pastoral… Se trata de aprender a estrutura interna da fé na sua totalidade, de modo que ela se torne resposta às questões humanas” (Bento XVI).
  8. Ao final de 2019 recebi os trabalhos de conclusão dos nossos seminaristas da Filosofia. Sentir-me gratificado, não apenas pelo conceito dos mestres, mas também pelo empenho de cada um na elaboração criteriosa dos temas propostos. A vida exige posição e essa postura exige critérios; por isso faço claríssima distinção entre quantidade e qualidade. A Igreja precisa de sacerdotes qualificados, também em humanidades. Os desafios impostos à ação evangelizadora da Igreja e da nossa diocese, não serão superados à força do número de presbíteros, mas da qualidade da resposta a ser dada. Aqui evidencio o papel da liderança comunitária e eclesial, a pastoral de conjunto e o protagonismo dos leigos.
  9. Toda a formação do seminarista converge a que sejam pastores conforme o coração de Nosso Senhor Jesus Cristo. “Ninguém toma esta honra para si mesmo, mas deve ser chamado por Deus” (Hb 5,4). O sacerdócio de Cristo é dom para a Igreja confiado a homens, ‘instrumentos limitados’. Jesus Cristo faz a convocação, embora conhecendo a cada um profundamente. No mistério da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo, o qual celebramos nestes dias da Semana Santa, o cristão se depara com a negativa ao chamado de Jesus; alguns por não se abrirem à Graça, outros por não acreditarem na força que vinha do alto e os preenchia. A vida no Seminário é caminho para a consciência da eleição divina e tempo oportuno para superação do que é ou poderá ser empecilho para a autenticidade e felicidade do discipulado de Cristo. O exercício pastoral é parte integrante de sua formação, realizado no plano do Seminário, nas visitas pastorais e missionarias da diocese, no tempo das férias e na articulação do projeto Amigos do Seminário.
  10. Quanto à corresponsabilidade, é preciso superar essa cultura paternalista onde tudo parece depender da diocese. Quando o jovem ingressa como seminarista, a diocese deve prover para que estejam garantidas as condições necessárias para a formação dele. Em contrapartida, o jovem deve empenhar-se na divulgação do projeto Amigos do Seminário motivando a própria família e os amigos para se tornarem associados. Corresponsabilidade também é exercício da partilha e sinal reluzente do chamado à vida presbiteral.
  11. “Escolhidos dentre os homens e designados para representá-los em questões relacionadas com Deus…” (Heb 5,1). Queridos seminaristas, emociona-me encontrar jovens em nossas comunidades que desejam trilhar este caminho de santidade para conhecer o chamado de Deus e respondê-lo com honestidade e dedicação total. Por mais incomum que seja, aquele que se dispõe a servir o Senhor, não reserva nada para si, tudo entrega a Ele. “Eis-me aqui, Senhor!” e “Faça-se em mim, a Tua Palavra”.
  12. O lhes peço é que perseverem na trilha de Jesus Cristo, como discípulos D’Ele. Permaneçam N’Ele buscando a santidade, “sede santos”. Interceda por nós, a Santa Mãe de Deus, e que obtenhamos por nossas preces a intercessão de Santo Antônio, padroeiro da nossa diocese. Por favor, parafraseando o papa Francisco, não se esqueçam de rezar por mim.

Feliz Páscoa para você e toda a sua família.

Deus vos abençoe.

+ Francisco de Assis Gabriel dos Santos

Bispo diocesano de Campo Maior

Solenidade da Instituição da Eucaristia

Quinta-feira Santa, 09 de abril de 2020

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