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Artigo “O homem e a necessidade da Misericórdia na atualidade”, escrito pelo padre Marcos Rogério

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O HOMEM E A NECESSIDADE DA MISERICÓRDIA NA ATUALIDADE: UMA REFLEXÃO A PARTIR DA ENCÍCLICA DIVES IN MISERICORDIA DE SÃO JOÃO PAULO II

O surgimento do Papa Francisco no cenário eclesial universal trouxe, entre outros aspectos, uma certa “popularização” do tema da misericórdia. É evidente que a Igreja não está descobrindo a misericórdia como tal, esta já possui uma história, se levarmos em consideração a filosofia grega e a herança hebraica contida na Sagrada Escritura, por exemplo.

A misericórdia nunca foi tão debatida, especificada e almejada pelos fiéis cristãos. Por outro lado, vemos o homem contemporâneo profundamente inserido em suas mazelas, ferido, vulnerável e desiludido depois de tantas promessas não cumpridas da parte do mundo desenvolvido. Se podemos aproximar essas duas realidades é possível afirmar que o homem hodierno necessita da misericórdia. Parafraseando Papa Francisco, se acontece uma “globalização da misericórdia”, poderíamos pensar numa radical transformação social e estaríamos falando no justo remédio de que necessita o mundo de hoje.

Neste sentido, encontramos uma intuição muito interessante e atual na segunda Encíclica do Papa São João Paulo II intitulada Dives in Misericordia de 1980. Passaram-se quase 40 anos quando o Papa trouxe, para a reflexão da Igreja a nível mundial, o tema da misericórdia e sua incidência nas relações entre os homens. Queremos retomar algumas intuições deste documento e apontar a misericórdia como um princípio moral potente em favor da atual situação do homem contemporâneo.

1. Algumas intuições da Encíclica Dives in Misericordia

O Papa São João Paulo II deu à Igreja a Encíclica Dives in Misericordia no ano de 1980, sobre a revelação de Deus que é rico em Misericórdia (Ef 2,4). Convidou a civilização contemporânea a se aproximar desse mistério divino oculto desde todos os séculos, mas que foi comunicado através de Jesus Cristo.

O documento está dividido em oito partes que poderíamos agrupá-los da seguinte forma: Introdução, que coloca a misericórdia no centro do evento Jesus Cristo; uma abordagem bíblico-teológica, cujo enfoque é comprovar que a misericórdia tem o poder de devolver ao homem caído e ferido, por causa do pecado, a dignidade perdida, aquela de filho de Deus; analisa a vida do homem contemporâneo em relação com o atual progresso; para afrontar essa realidade, a Igreja deve dar testemunho, anunciar e ensinar a misericórdia aos fiéis e aos homens de boa vontade, e uma conclusão que é um apelo a oração pedindo a misericórdia.

Como se observa pela estrutura da argumentação da Encíclica, a Igreja precisa dar uma resposta aos inúmeros problemas que a civilização moderna não conseguiu resolver com o progresso. Anunciar a misericórdia divina e praticá-la deve ser a sua missão nestes novos tempos. Com isso, o Papa superou duas formas redutivas de ver a misericórdia. Primeira, a misericórdia como uma atitude piegas, característica de gente fraca e puramente sentimental.

Segunda, a misericórdia como processo unilateral, que mantém a distância entre quem faz o bem e aquele que é gratificado, como se a misericórdia consistisse em apenas realizar algumas obras assistenciais ou de solidariedade; essa situação representa um perigo para a dignidade da pessoa e abre espaço para uma ideia puramente externa da misericórdia. Aqui se trata de ser misericordioso sem reservas, em cada situação ou em cada adversidade, e não somente e esporadicamente, quando se apresenta alguma oportunidade.

A Encíclica retoma a concepção de misericórdia das Sagradas Escrituras que é aquela de aliança. A misericórdia é justamente o modo como Deus se relaciona com o seu povo que, em várias ocasiões, rompe e desfaz essa relação de amor (Ex 34,8-28; Jr 5,1-17). Ela inspira as relações entre os homens, é solidariedade de quem atende o outro e, ao mesmo tempo, sente a dor do outro. Foi justamente essa a perspectiva assumida por Jesus no seu ministério (Mc 10,7; Mt 9,13; 5,7.48; Lc 10). Por isso, a misericórdia entendida assim, como relação, desinstala o homem e o insere em uma realidade de compromisso pessoal. Concebe misericórdia no seu conceito mais autêntico, «um ato ou um processo bilateral que consiste em uma comum participação àquele bem que é o homem».

É mérito do Papa São João Paulo II, a aproximação da concepção de misericórdia ao de caridade (agape) no sentido paulino (1Cor 13), a ponto de afirmar que a misericórdia é o segundo nome da caridade. Abriu, com isso, campo vastíssimo de compreensão da misericórdia, e a sua importância nas relações do homem com Deus e dos homens entre si, muito mais deste do que do outro, como veremos.

O amor é capaz de se debruçar sobre cada mal ou miséria humana. Aqui, o amor misericordioso, como relação, envolvimento e empatia, devolve ao homem ferido a dignidade que o pecado lhe tirou (Lc 15). A misericórdia exige que a pessoa se envolva com aquele que necessita de ajuda. A torna capaz de ver a si mesma e quem ela é diante de Deus.

Entre as várias intuições presentes na Encíclica, tomamos estas porque as consideramos mais importantes para compreender o papel da misericórdia em relação com as situações de penúria que está inserido o homem contemporâneo. Queremos reafirmar a misericórdia como fundamento para todo agir cristão e um caminho seguro de que estaremos aplicando os autênticos princípios morais vividos por Jesus Cristo.

2. Uma visão do homem contemporâneo

O Concílio Vaticano II, para falar de uma história recente, deixou acurada análise sobre a condição do homem no mundo de hoje e, condicionou a missão da Igreja à investigação constante dos chamados “sinais dos tempos”.

É verdade que o mundo pós-guerra sofreu profundas transformações seja no campo do pensamento, das relações interpessoais, da técnica e da ciência. O desenvolvimento social chegou a tal ponto que gerou a falsa ideia de que a liberdade, a segurança material e a dignidade humana estavam garantidas. «A ideia da vida humanamente digna assume aqui uma importância universal não mais somente ideal, mas verdadeiramente real». Contraditoriamente, todo esse desenvolvimento trouxe, ao invés, muita crise, conflitos e, em algumas situações, a desqualificação do homem, da natureza, das relações humanas entre si e com Deus.

Não faltam análises da situação de indigência do homem no mundo de hoje. Bernhard Häring, na vanguarda do Concílio Vaticano II, fez um elenco dessas transformações dos novos tempos e desafiou a teologia moral a olhar esses “sinais” para que sua mensagem não fique aquém da evangelização no mundo de hoje. Em outra esfera, os bispos da América Latina e do Caribe reunidos na V Assembleia Geral em Aparecida-Brasil, também manifestaram preocupação a respeito dos rumos que a humanidade hodierna vem tomando; uma realidade sem brilho, sem sentido e complexa, ainda que as tecnologias sejam as mais desenvolvidas, não conseguem satisfazer o desejo de dignidade inscrito na vocação humana.

Estamos diante de um mundo contraditório: é poderoso e débil, capaz do melhor e do pior, tendo diante de si o caminho da liberdade e da servidão. Estamos diante de um mundo que sofre os desequilíbrios das forças que suscitou e não é capaz de gerenciar. O Papa Bento XVI na sua Encíclica Spe Salve, ofereceu os fundamentos para desmistificar a onipotência do progresso e evidenciou sua ambiguidade. Esse reino do progresso pode estar levando o homem para um fim perverso.

Mas o problema não é o progresso, o desenvolvimento em si, mas o modo como vem sendo conduzido. Percebemos que a sociedade, ao mesmo tempo que chega ao nível tão alto de desenvolvimento, vai deixando pelo caminho o “homem”, principalmente os mais frágeis. Vai excluindo, explorando tudo que pode, inclusive o próprio homem. O Papa Francisco é um dos arautos no tempo presente que denuncia as armadilhas da “cultura dominante”, que põe em primeiro lugar aquilo que é exterior, imediato, visível, rápido, superficial e provisório, deixando para trás o rastro de violência, de medo, de fome, de morte. (EG 52-60). Chegamos a um tal desenvolvimento, mas não conseguimos globalizar o bem-estar para todos. O Homem tornou-se, numa visão mais pessimista, sem horizonte, sem esperança, ferido, frágil e vulnerável.

«A combinação de todos estes fenômenos de laceração, de divisão e ruptura não permite deixar levar-se por fácil otimismo. De fato, não poderíamos ser que profundamente pessimistas se não nos fosse o evangelho da reconciliação, que não é palavra distante e quase estranha, mas uma realidade encarnada no nosso mundo e na história humana».

No entender de Häring, um sinal de esperança é a reconciliação pregada e realizada por Jesus Cristo de que a Igreja é, hoje, portadora-anunciadora. O Papa São João Paulo II ampliou essa concepção na Encíclica Dives in Misericordia. Porque a reconciliação, o perdão e a paz são frutos de uma realidade maior, a misericórdia, vivida entre os homens como resposta ao amor que provém de Deus (Lc 6,36).

Estamos diante de um problema do qual o Papa São João Paulo II cobra uma resolução definitiva. Ele mesmo entende que, praticar da misericórdia é o remédio para os males e as ameaças que passa a nossa sociedade hoje. Assim, chegamos ao ponto que se faz necessária uma justificação dessa assertiva.

3. Deus é companheiro de caminhada

Poderíamos pensar que o homem, inserido nesta realidade, restaria angustiado e entregue à própria sorte. Porém, a fé cristã é interpelada a responder a esta situação. Na verdade, a consolação vem do próprio Deus que se encarnou a assumiu nossa história.

A encarnação de Jesus ofereceu para nós uma síntese de todo o mistério da aliança, da obra salvadora do Pai. Deus veio ao nosso encontro, aliás, Deus sempre veio até nós. O Catecismo da Igreja Católica inicia justamente afirmando que “o homem é capaz de Deus” e “Deus vem ao encontro do homem”. Estamos falando de duas liberdades que se encontram, de dois caminhos que se cruzam. Isto comporta a certeza de que Deus se tornou nosso companheiro de viajem e assumiu a condição humana mesmo nos limites da dor, das angústias e da morte.

Agora, neste momento de fragilidade do homem de hoje, depois de tantos sofrimentos, de tanta desilusão, mais uma vez precisamos apresentar o homem Jesus crucificado que também foi ferido, traído e humilhado. Ele não está longe das mazelas e dores do ser humano, antes, se tornou o próprio doente, o faminto, o preso, o imigrante (Mt 25,35-40; Lc 10,16).

Essa empatia de Deus pelo homem é sempre a misericórdia divina. Ela se torna, portanto, uma chave preciosa para lidar com os desastres que o mundo em desenvolvimento vem deixando para trás. Segundo o Papa São João Paulo II, é tarefa da Igreja anunciar e praticar a misericórdia divina, para que ela se torne o elemento de coesão das relações dos homens entre si.

4. A misericórdia como princípio reeducador das relações humanas

Não poucas vezes Jesus esteve inserido na tensão entre o cumprimento fundamentalista da Lei judaica e a centralidade da pessoa pela prática de algum ato de misericórdia (Mc 2,23-28; 3,1-6; Mt 22,34-40). São Paulo afirmou que o homem não se salva pela Lei, mas pela fé em Jesus Cristo (Gl 2,16; Rm 3,28). Mas será que existe, de fato, esse dualismo? No ministério de Jesus, a autêntica interpretação da Lei é aquela que passa pelo filtro da misericórdia.

A Lei do verdadeiro cristão é o amor: «Nisto reconhecerão todos que sois meus discípulos se tiverdes amor uns pelos outros» (Jo 13,35). Então, a Lei de que se serve o cristão para gerir suas relações é o amor. A missão da Igreja é fermentar o mundo com a lei do amor e, assim, mudar as consciências e as posturas em relação ao outro.
A misericórdia lança o homem para fora de si.

Ela procura igualdade e atua como fator regulador nas relações. Se misericórdia é colocar-se no lugar do outro e sentir suas dores, então já não há espaço para a desigualdade ou desqualificação de quem quer que seja. Isto quer dizer que falta no homem de hoje esse altruísmo que auto realiza.

Falta libertá-lo do egoísmo, do individualismo, da vida sem sentido. A misericórdia tem esse papel: pode “desintoxicar” o homem da autoreferencialidade, da prepotência, do orgulho, assim, podemos falar de uma reeducação humana, orientada para o amor que descortina o bem que não tem fim.

A misericórdia faz surgir uma perfeita relação entre os homens. Quem dá se torna mais generoso, aberto e, portanto, mais humano; quem recebe é restituído na sua dignidade de pessoa e filho de Deus. A misericórdia torna o mundo mais humano.16 «Só a misericórdia pode proclamar o bem sobre o mal, porque ela mesma é já uma vitória do bem sobre o mal».

Escrito pelo padre Marcos Rogério de Morais Cardoso.

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